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sábado, 5 de maio de 2007

11. O baronete

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Entre o Huambo e o Chinguar a vida sorria a D. Emília, desde que o enteado Sebastião lhe trouxera o novo marido Zé Vicentino, desaportado no Lobito há pouco mais de dois meses. Ainda não se acostumara ao carregar dos xis e à troca dos bês pelos vês, mas no demais estava satisfeita com o casamento e não se sentia enganada, como chegara a temer. Os casamentos por procuração por vezes têm dessas coisas, sonha-se um mundo e acaba-se noutro, mas não era o seu caso - dizia às comadres em horas de tricot.

Vicentino revelara-se um negociante de primeira e desde que chegara tinha deitado mãos ao armazém que prosperava a olhos vistos. Para organizar a fazenda não demonstrara a menor habilidade, mas com o armazém parecia um mágico. Agora abasteciam 4 fazendas próximas e mais uma série de gentes locais. E Sebastião vivia num vai-e-vem para o Lobito a tratar das encomendas, coisa aliás que lhe dava grande prazer, sobretudo depois que havia descoberto as rebitas da Canata e do Salão Lobito, os cabarés Calema, Comodoro e Dominó e a boite Palmar.

Sentia-se o digno herdeiro do sangue do avô, um tenente do GEAR, depois da Esquadrilha Expedicionária e mais tarde, após a primeira guerra mundial, do Grupo de Esquadrilhas de Aviação do Huambo e cuja descendência se estendia para além de África, do Estoril em Portugal à Sorbonne em Paris. O avô nascera por acaso em Angola, filho de um alto funcionário do reino, fizera estudos em Portugal e ai ingressara na vida militar. Voltara a Angola já tenente, com a esposa que esperava um filho, o pai do Sebastião.

A esposa falecera a seguir ao parto. A vida no Huambo dos anos 1920 era penosa e não se compadecia com as fragilidades das gentes menos humildes. O calor era insuportável e de noite o frio fazia-se sentir. E quando chovia era sem parar, dias infindos até os caminhos todos se enlamearem. A tristeza da distância à civilização havia de a matar, dizia a princípio, mas depois parecia até conformada. De qualquer modo, acreditavam que o regresso estivesse para breve, tais eram as notícias que chegavam sobre a extinção da aviação naquele ermo.

Após a sua morte, o tenente ficou triste alguns meses, parecia até que seguiria ao encontro da esposa, mas depois as coisas mudaram. Ficou mais sôfrego com os prazeres da vida e arranjou uma mulher. Depois outra, e outra. Depois perderam a conta a quantas seriam. Acabou-se a aviação no Huambo e ele deixou-se ficar. Os da sua família, queriam que regressasse à Metrópole para seguir a carreira, mas ele não quis. Voltou a Portugal apenas para tratar de transferir os seus bens e não ter de fazer nada na vida a não ser “vivê-la”, segundo dizia. E vivia. Continuava a viver e a fazer crescer a família e os haveres, porque tinha bom tino para os investimentos.

Cuidava dos filhos à distância. Eram muitos e nem lhes sabia o nome, mas tinha contratado um contabilista cuja incumbência era garantir que a rapaziada não carecesse de nada, nem de estudos e que as filhas fossem educadas finamente, pudessem almejar um bom casamento e tivessem dote a condizer com a sua condição de filhas de um baronete, que Portugal era agora uma república, mas a monarquia não estava acabada, dizia em conversas nos círculos de amizade mais íntimos.

Sebastião, após a morte do pai, passara a ser o seu primeiro herdeiro na linha de sucessão, mas mais do que o título almejava-lhe a condição de mulherengo bem quisto por todos e sobretudo, por todas. Como futuro baronete, o avô dedicava-lhe atenção especial e sabia-lhe o nome, as virtudes, os defeitos e as habilidades de conquista dos corações femininos. Com a sua influência tinha-o livrado do serviço militar e preparava-o como se deve preparar um baronete em África, ou seja, numa condição tão especial que nem o próprio saberia esmiuçar.

-Temos de ir ao Lobito esta sexta... estreia novo ballet no Dominó. – Disse a Sebastião.
E foram.

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Glossário:

. Rebita – estilo de música angolana que incita a dança.

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Notas:

1. GEAR – Grupo de Esquadrilhas de Aviação República, Amadora, Portugal, fim da década de 1910 à de 1930, primeira unidade operacional da aviação em Portugal.

2. A Esquadrilha Expedicionária foi formada para defesa de Angola no decurso da I Grande Guerra e extinta em 1921 por Norton de Matos, dando lugar ao Grupo de Esquadrilhas de Aviação do Huambo, por sua vez extinto em 1924 devido a dificuldades financeiras da, então jovem e atribulada, República Portuguesa.

3. Sorbonne – universidade parisiense, centro da actividade estudantil que culminou com o Maio de 1968.
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quinta-feira, 19 de abril de 2007

10. O terrorista

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Duas semanas mais tarde num domingo, apesar dos apelos do avô Antunes à esposa directora, Teresa continuava no castigo, em lições para ser “dona de casa”. Estava no anexo com a cozinheira Domingas que ajudava a lavadeira Eulália a passar alguma da roupa da semana. Teresa limitava-se a estar por perto e a vê-las trabalhar. Domingas e Eulália falavam sem parar enquanto fumavam uns cigarrinhos pretos que pareciam engolir nos momentos em que as mãos ficavam ocupadas com a roupa. Teresa tentava compreender os movimentos dos cigarros e a habilidade das duas a virarem-nos para dentro da boca, sem auxílio das mãos, deixando a parte acesa invisível. Mas continuavam acesos e pelos narizes ia saindo a fumaça. De tempos a tempos, movimentavam os lábios e os cigarros voltavam à posição usual com a ponta acesa para fora da boca.

Teresa quis saber mais sobre tais habilidades e comentou sobre uns engolidores de fogo que em tempos tinham passado pela fazenda. Eulália com ar espantado, disse:
- Engolia fogo? Aka! Você tens certeza menina?
Teresa confirmou e descreveu as tochas incendiadas, o sopro dos engolidores de fogo e o ritmo de uns tambores pequenos que outros do bando tocavam.
- Aka! – Repetiu Domingas também, enquanto tirava o cigarro da boca aparentemente sugestionada com a história dos engolidores de fogo.
- Aiiii! Acudam, acudam! – Gritou do fundo da casa a menina Judite pondo fim à conversa de Teresa, Domingas e Eulália que irromperam à porta do anexo. – Um homem no meu quarto! – Continuou a voz aterrorizada.

Em segundos, enquanto se dirigiam à voz viram Jorginho com ar atrapalhado. Parecia estar a sair de casa, mas retornou enfileirando-se atrás das mulheres e de Teresa.
- Gritaram?! – Perguntou como se não soubesse outra coisa.
- Você não tens juízo! – Disse-lhe Eulália.
- Vai lá no teu cubico e fica quieto. Se tua madrinha fica a saber vais apanhar nessa chipala. – Disse Domingas, referindo-se à directora, madrasta de Jorginho.
- Chééé, fiz o quê? – Retorquiu Jorginho provocador, mas obedecendo Domingas.

A directora tinha saído para tomar chá com umas senhoras amigas do Centro de Caridade. Esses chás costumavam ser a meio da semana uma vez por mês, mas a reunião era de emergência. Tinha chovido muito nos últimos dias e a enxurrada deixara nos morros, muitos sem nada ou com pouca coisa. Uma dúzia tinham finado. Havia de deitar mãos à obra e tricotar casaquinhos para as crianças desvalidas. Outras entidades preocupar-se-iam com outras necessidades dos sacrificados pelas forças da natureza e incúria dos humanos. A maior preocupação na cidade era que não grassasse a cólera, que já tinha dado sinais de espreita em cinco casos detectados a tempo.

O avô Antunes e as demais crianças também não estavam. Tinham ido ver uma partida de hóquei em patins no ringue na CPPL. Jogava a CPPL com uma equipa da Huíla, que iria obviamente perder, segundo os dizeres do avô, porque uma coisa era andar de patins e outra era patinar em tamancos. As crianças não tinham entendido a relação entre tamancos e patins na disputa desse dia, mas o avô estava certo quanto à vitória da CPPL. Teresa queria ter ido porque lhe tinham dito que a CPPL era ao lado de uma das entradas laterais do porto, junto à Colina da Saudade e esperava ver os navios. Não conseguindo vencer a directora na execução do castigo, o avô prometera a Teresa que um dia a levaria ao porto, ao jogo, aos navios e que isso seria antes dela voltar à fazenda nas férias de Natal.

Já dentro de casa Teresa, Eulália e Domingas encontraram a menina Judite apavorada porque vira um homem quase a entrar pelo seu quarto, mas no susto o ladrão ou terrorista tinha-se escapulido sem que ela lhe visse a cara. E se fosse um terrorista? Falava-se tanto da guerra que alastrava pelo interior do país, no mato, e mais se falava que chegaria às cidades. Só poderia ser um terrorista. Em África não se sabia de ladrões. Uma ou outra ocorrência sem significado chegava por vezes às esquadras de polícia. Domingas perguntou se tinha visto a catana. Sabia a resposta. Dissera que se não vira catana não podia ser terrorista. Era um terrorista, afirmava a menina Judite com os cabelos soltos e nada aprumada como era seu costume. Domingas e Eulália tentavam tranquilizá-la, mas o pânico já avassalara.

- Não tem terrorista! – Disse Domingas despreocupando Teresa enquanto voltavam ao anexo.
Eulália ficou na casa a fazer companhia a menina Judite que não queria ficar sozinha e que segundo a própria, ia fazer as malas e voltar à sua terra na Metrópole, no primeiro navio que saísse do porto.
- Kwata Nero, kwata kssss kssss kwata! – Jorginho atiçava o cão do lado de dentro do quintal a uns garotos que lançavam papagaios de papel na rua.

- Chééé terrorista Jorginho, menina Judite não viu tua chipala de espreitador. Está arrumar bikuatas para ir embora no navio. - Disse Domingas rindo.

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Glossário:

. Aka – arre, caramba, pôxa.
. Bikuatas, bicuatas – objectos pessoais, acessórios, pertences, mobiliário.
. Catana – faca grande, ligeiramente curva, de cortar mato ou cana-de-açúcar.
. Chipala – rosto, cara, fuças.
. Cubico – casa, lar, quarto, espaço próprio, cafofo.
. Kwata, kuata – morde. Forma de atiçar os cães.

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Notas:

CPPL – Casa do Pessoal do Porto do Lobito, entidade com actividades culturais e desportivas com destaque para o hóquei em patins.
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terça-feira, 10 de abril de 2007

9. A verdade

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Dezoito minutos depois das cinco da tarde, hora em que terminavam as aulas, na sala da directora, a professora visivelmente nervosa dizia:
- Com o devido respeito Senhora Directora, mas a negrinha que tem ao seu cuidado está a precisar de um bom correctivo. Por favor não me entenda mal. De forma alguma estou a pôr em causa a educação que lhe dá, mas a essa gente não há o que se lhes faça. Teve o desplante de me interromper a reprimenda aos mentirosos e de forma sarcástica ainda me perguntar como eu ia falar com a mãe dela morta. Concerteza que lhe dei logo cinco reguadas, e outras duas à Lara que resolveu apelar pela amiga, mas isto não pode ficar por aqui. Sabem tão bem que fizeram mal que nem choraram. E o Henrique coitado, está a ser influenciado. Chorou que nem uma menina e eu nem lhe sacudi o pó. Também não fica bem um rapaz da idade dele em prantos. Está quase com 8 anos!

E continuou a sua versão da história, baseada no que a filha lhe contara ainda no intervalo, porque “as crianças não mentem”, dizia referindo-se exclusivamente à sua filha, de cuja educação tinha certezas infindas. A directora tentou acalmá-la com a garantia que a Teresa seria castigada severamente e a mãe da Lara seria devidamente informada para tomar as providências necessárias. Apesar de serem brancos de segunda, eram pessoas de respeito, com boas ligações na Metrópole, acrescentou a directora. Além do mais, a mãe de Lara nem era branca de segunda, por isso estava ciente que saberia pôr a filha na ordem e que outra situação como a presente, não voltaria a acontecer.

O castigo de Teresa começou pouco depois ainda no colégio, na sala da directora. O dobro dos trabalhos de casa dos outros meninos, uma reprimenda de quase meia hora com os avisos das sanções vindouras: nada de brincadeira, nada de saída aos domingos com os outros, durante um mês, nada de doces ou sobremesas e outras coisas mais das quais Teresa não entendeu nem metade. Iria aprender a cozinhar, costurar, bordar, limpar, lavar, passar, enfim ser dona de casa. Não sabia o que de tão grave pudesse ter feito, mas decerto tinha sido algo muito mau para estar toda a gente tão enervada. À noite chorou sem ninguém ver porque tinha sido uma menina má, apesar de não saber o que de mal tinha feito, mas a mãe lá no céu poderia também estar zangada com ela.

Na manhã do dia seguinte a mãe da Lara estava no colégio, com um ar muito sério. Primeiro esteve com a directora na sala desta, depois a professora também para lá foi antes do intervalo. Depois saíram as três, a mãe de Lara ainda com um ar sério, a directora e a professora com ar de quem tem dor de barriga. A professora parecia ter chorado, tinha os olhos vermelhos. A Áurea estava à espreita à saída da sala da directora. Ouviu a mãe de Lara dizer às outras duas:
- Seria bom que de agora avante tivessem mais cuidado em julgar as crianças, porque isto não se pode repetir. Mesmo que de uma mentira se tratasse, não é desta forma que se educam crianças. Procedimentos destes só as podem traumatizar e criar-lhes aversão à escola. E afinal, se a Lara agarrou o leme durante uns segundos, e o navio não estava parado, esteve a “guiar” o navio, como ela diz (e sorriu).

As outras concordaram, derreteram-se em desculpas até porque a mãe da Lara era amiga da família do comandante e de gente bem mais importante nas Colónias e na Metrópole. E era branca de primeira. Casada com um de segunda, mas rico e influente, por isso, ainda assim era branca de primeira. E Áurea foi a correr para o recreio informar Deus e o mundo que tinha ouvido a mãe da Lara dizer que ela tinha mesmo guiado o navio. O silêncio e o pasmo instalaram-se, os olhares viraram-se para Lara, Teresa e Henrique que estavam juntos. Áurea pululava de grupo em grupo para repetir a verdade da história do navio. Alguns grupos voltavam a chamá-la como a necessitarem de confirmação e confirmação da confirmação do que ouviam.

Depois na sala de aula, a professora esclareceu que Lara não tinha mentido, mas isso não desculpava Teresa da sua má-criação e as crianças não podiam interromper os adultos quando estão a falar. Voltou-se para o quadro, escreveu umas contas difíceis e atacou com reguadas todos os que não as acertaram e que foram exactamente todos, excepto Lara que ganhara o estatuto de “intocável”. Além disso era boa em contas e acertara quase todas nesse dia. À saída, Teresa disse a Lara:

- Agora já sei que a minha mãe também não está zangada comigo. Fez como a tua, mas não pode vir.

Olhou o céu e foi a rir para o carro da directora onde já estavam Henrique, Helena e Renato.
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quinta-feira, 22 de março de 2007

2. A despedida

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A sala era grande do ponto de vista de Teresa. Ainda assim pareceu-lhe boa ideia não se adiantar demais no espaço, não pular, saltar, cantarolar, mexer no que fosse, muito menos enfiar o dedo no nariz, ou sequer fazer alguma pergunta. Não sentia medo nenhum, mas a ocasião parecia-lhe solene. Lembrava o dia que foi para a Missão do Canhe no Huambo, desfilar na entrega das alianças no casamento da Dona Emília. Havia lá um noivo, mas não era o noivo. Tinham-lhe dito que deveria dar as alianças aos noivos. Depois disseram que o noivo não era o que estava lá e Teresa não lhe quis dar a aliança. Foi uma maka na igreja. Depois todos riram. Por fim o padre abençoou Teresa e disse que Deus olharia por ela. Abençoou também a Dona Emília e o noivo que não era noivo. Era primo. Mais tarde tentaram explicar-lhe que a Dona Emília estava a casar por procuração. O noivo de verdade estava na Metrópole e só ia chegar daí a dois meses. E como ia morar logo com a Dona Emília, o casamento foi feito antes e por procuração.

De toda a história, Teresa entendeu que em caso de dúvida sobre as coisas, o melhor a fazer é ficar o mais quieta e calada possível. Além disso memorizou: “por procuração o noivo vem depois”. Tempos mais tarde, lembrando-se disso e já que o pai vivia a falar que ela havia de casar com um branco da Metrópole, resolveu aliviar a ansiedade paterna.
- Pai, queres que eu case amanhã por procuração?
- Amanhã? Por procuração? Que perguntas são essas Teresinha?
- Caso amanhã por procuração e depois assim, já me caso com o branco da Metrópole, quando ele vier.
- Qual branco? – Perguntou o pai.
Teresa ficou com os olhinhos pequenos, pequeninos, a olhar o pai. Estava a pensar, mas a pergunta era complicada. Ah! Era preciso saber qual branco? E como ela poderia saber, se o que o pai queria era um branco da Metrópole e a avaliar pelo caso da D. Emília ela primeiro casou e depois é que o noivo chegaria. Ora, esses brancos estavam na Metrópole e Teresa nem sabia muito bem onde isso seria, mas concerteza era longe. Entretanto o gato Bolinha passou, Teresa foi atrás dele e a conversa do casamento terminou para descanso de todos menos do gato que não gostava de ser agarrado.

Agora, na sala da Directora – “Senhora Directora”, avisara-lhe o pai – Teresa esperava olhando em redor, muito devagarinho. Uma secretária enorme de madeira escura e brilhante atravancava o acesso à janela por onde Teresa queria espreitar, para saber o que estava lá fora. Em cima havia uma bola com muitas cores, mas o mais em azul, que o pai lhe disse ser o mundo. Além do mundo, a secretária tinha muitos papéis todos direitinhos, 3 lápis, uma borracha, um molhinho de envelopes, 4 livros grandes e mais outro pequenino e gordinho e uma caneta espetada num frasquinho de vidro com tinta azul escura. As paredes quase não se viam. Estavam forradas com estantes cheias de livros, alguns muito amarelados. Teresa nunca tinha visto tantos livros. Ela tinha dois da Anita. Gostava muito da Anita dos livros. Os livros da Anita tinham desenhos com a Anita, a amiga Bruna, o cachorrinho e outras coisas, além de letras, que para Teresa eram coisas que preenchiam os espaços dos livros onde não cabiam mais desenhos. O pai também tinha livros, quase todos amarelos com letras pequeninas e sem desenhos e mais outros que ele chamava “livros de contas” onde escrevia coisas de dinheiro que a Teresa um dia, quando fosse grande, tinha de saber para mandar na fazenda – era o que o pai lhe dizia.

Entre a secretária e a janela estava uma cadeira enorme, vazia e do outro lado, outra cadeira também grande onde o pai estava sentado a olhar indefinidamente para a bola do mundo, que de vez em quando fazia rodar devagar. A porta abriu-se e chegou uma senhora magrinha e alta com o cabelo muito redondo e levantado por igual, o que lhe fazia a cabeça muito grande. Era a senhora Directora. Muitas senhoras usavam aquele penteado e Teresa sabia que aquele cabelo alto precisava laca para não cair. Laca parecia-lhe uma coisa fina, mas a Dona Emília no rescaldo da maka no casamento por procuração havia-lhe dito que a laca não era para a Teresa, nem quando ela fosse grande. Alguma coisa em sequela do cabelo de Teresa ser demasiado encaracoladinho, “coisa da raça” – ela disse.

- Esta é a Teresa? – Perguntou a Directora ao pai, depois de o cumprimentar e saber como tinha sido a viagem.
- Sim, é a minha Teresinha. É muito viva, esperta que só ela.
E virando-se para Teresa:
- Dá as boas tardes à senhora Directora.
- Boa tarde senhora Directora. – Disse Teresa com ar solene.
Os crescidos riram. Teresa ficou a olhar sem entender a piada. A Directora falou-lhe:
- Vais ter de estudar muito e ser bem comportada para não decepcionares o teu pai e mereceres a sorte que tens. De certeza vais gostar de estar na escola. Há muitos meninos e meninas, nos intervalos podem brincar, mas nas aulas têm de estar atentos, senão não aprendem. Os burros e os maus são castigados. Os estudiosos vão chegar longe na vida e aqui tratamos que os nossos alunos sejam estudiosos e venham a ser homens e mulheres de futuro. Daqui a pouco o teu pai vai embora e tu não vais chorar. Já és uma menina grande, não um bebé. Nas férias voltas à fazenda.

Isso já o pai lhe tinha dito – que nas férias voltaria à fazenda, que Teresa ficaria na casa da Directora, onde havia mais 3 ou 4 crianças de outras fazendas. O que eram férias é que Teresa não tinha ainda compreendido muito bem, mas pelo ar dos adultos que falavam disso, devia ser uma coisa boa. De qualquer dos modos, como as tais férias seriam na fazenda, deveriam mesmo ser uma coisa boa. O que a intrigava, era o que seriam “os estudiosos”, que pelos vistos ela tinha de ser. A conversa do pai com a Directora prolongou-se sem que Teresa entendesse pormenores, mas como tinha trazido as duas bonecas na mala, estava tranquila. Finalmente o pai chamou-a, sentou-a no colo, abraçou-a e ficou triste.
- Tem sido a minha alegria, minha razão de viver. – Disse, olhando para a Directora, como a desculpar-se.
- Pai, podes levar a minha boneca Joaninha contigo.
- Não queres a boneca, Teresinha?
- É para não voltares sozinho.
- Ah! Não é preciso. Agora na ida, vão outros senhores meus conhecidos que já cá estavam e por isso não vieram no nosso comboio. Fica tu com a boneca.

Saíram os três da sala e já na porta de saída, com o táxi à espera, sem Teresa ouvir porque se afastara a remexer num bolso do casaco, o pai disse à Directora, num tom de voz baixo:
- Preocupa-me como a minha menina vai reagir a esta distância e a tanta coisa nova na vida dela. Por favor, não deixe de me informar de qualquer coisa que aconteça ou que ela precise.
- Esteja descansado senhor Gonçalves, ela fica bem. As crianças nestas coisas são mais fortes que os adultos. E já lá diz o ditado, “muito mimo, estraga o menino”.

Mais um abraço a Teresa, cumprimentos à Directora e ao entrar no táxi é surpreendido por Teresa, que o ultrapassou e está à sua frente, quase enfiada pela porta dentro.
- Podes dar este rebuçado ao menino da estação?
- Que menino?
- O grande, sentado na pedra, que tinha farinha branca na cara.
Teresa referia-se a Kwadi, mas não lhe sabia o nome.
- Se o vir, compro-lhe outro rebuçado, está bem?
- Tá.

E o táxi seguiu pela avenida até ser apenas um pontinho...

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Glossário:

. Maka – confusão, discussão, desentendimento.
. Rebuçado – balinha.
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quarta-feira, 21 de março de 2007

1. O mesmo olhar

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O calor via-se em ondas sobre o chão, a caminhada já durava, durava... num olhar pareceu vislumbrar um recanto mais fresco. Tudo era novo, confuso, talvez assustador, mas sem leões a espreitar. Que terra era essa onde não se vêem leões e os homens não têm lanças? Outros bichos, estranhos zurravam num deslizar constante, mas ninguém os parecia temer. Um zurro maior estremeceu o solo. Deveria ser um bicho maior que elefante e ninguém fugiu. Havia árvores com copas verdes e um lago de água límpida, no meio uma pedra. Kwadi sentou. Coçou uma perna e olhou para o outro lado. Seria a casa do soba? Um soba de uma tribo importante e rica?

Em correria passaram alguns da tribo do soba da casa grande. Leões não se viam e os que corriam, corriam para o lado do zurro. Muitos outros vinham em sentido contrário, mas sem pressas. Um dos que iam, falou para os que vinham:
- O comboio já foi?
Outro respondeu:
-Ainda!
O bicho grande chamava comboio. Kwadi pensou – esse bicho não conheço. Estava melhor agora, sentado, e sabia mais um animal, comboio. Quando voltasse contaria aos da sua tribo. Eram poucos. Kwadi lembrava da infância quando eram mais, mas depois a seca fez muitos ir embora, atrás da caça. Ficaram os mais velhos e as crianças. Depois, outros mais se foram para casar em outras tribos.

Kwadi quis conhecer o mundo que pensava terminar pouco além do outro lado do rio, mas temeu ir por esse caminho. E se o mundo terminasse logo depois? Melhor seguir no sentido contrário. Encaminhou-se para norte. No dia seguinte viu as zebras e depois andou, andou, andou pela savana e por caminhos diferentes dos que conhecia. E agora sabia tantas coisas. O seu pensamento foi recortado por outros passantes.

- Veio do Chinguar?
- Vim de Dilolo. Ando há um mês nisto. Com paragem em quase todas as estações. Sou caixeiro-viajante. Fui negociar conservas em lata, da fábrica da Canata. Os gajos lá no mato, nem sabem o que é um peixe e a fábrica agora tem uma boa variedade de conservas. Até têm carapaus com tomate, enlatados como se fossem sardinha em óleo.
- Ah! Então vai vender bem.
- Sobretudo as latas com gindungo. Encomendas não me faltam.
- Pai, aqui é a escola? – perguntou uma criança que vinha mais atrás. Os crescidos olharam para ela e riram. Kwadi olhou também.
- É a primeira vez que a trago à cidade – esclareceu o pai. Vem estudar. Vai ficar aos cuidados da directora do colégio. Lá na fazenda não tenho como.

Kwadi ficou atónito. Os crescidos também. Só Teresa, a menina, parecia alheia ao facto. Tinha a pele escura como Kwadi. Mas o pai não. E era tão velho, pensou Kwadi. Mais que avô. Este era um lugar estranho, tão diferente da tribo de Kwadi. Entretanto, o pai informou.

- Adoptei-a, em 61. Fizeram-me uma razia na fazenda. Na minha família e nos outros todos que lá estavam. Até os cães, cabras, galinhas (e inspirou como se lhe faltasse o ar há horas). Safei-me porque tinha ido abastecer no armazém da Cáala e só voltei no dia seguinte. A única coisa viva que me esperava era a miúda que a mãe escondeu antes de lhe limparem o sebo. Tinha um mês ou dois. Mataram-lhe também o pai e os irmãos. A mim não me deixaram nem a mulher, nem filhos, noras ou genros, nem netos e nem o bisneto que era da idade desta. Desde então é a minha única família. É minha herdeira e tem de ter estudos. Já fez seis anos. Ainda a hei-de ver doutora, casada com um branco da Metrópole, funcionário do Estado e de boas famílias. Brancos de segunda como eu ou os senhores, nunca vão mandar nada nesta terra. Tem de casar com um branco da Metrópole (e riu). Mas ela é que tem de saber governar a fazenda, mandar no dinheiro.
- É uma grande empreitada. - Disse o que falava antes com o caixeiro.
- Olhe, sucesso! Chegou o meu carro. Senhores, tenham um bom dia. – Disse o caixeiro afastando-se em outra direcção. E foi num daqueles bichos que zurravam em deslizar constante.

Carro! O bicho que desliza é carro, anotava Kwadi de si para si.
- Teresa, é por aqui. – Disse o pai para Teresa que se aproximava curiosa de Kwadi. Os olhares cruzaram-se. Kwadi reconheceu-lhe o seu próprio olhar. O da curiosidade, receio do desconhecido, e o brilho da novidade, da descoberta. Tal como ela, um dia retornaria à sua tribo e poderia contar coisas novas. Mas a que tribo, Teresa poderia voltar? – perguntou-se Kwadi, enquanto a via afastar.

Teresa seguiu, junto do pai, saltitando em pulinhos...


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Glossário:

. Branco de segunda – referente aos brancos nascidos nas colónias portuguesas, à época em que ainda eram colónias, e a quem foi legalmente vedado o acesso a determinados cargos públicos ou administrativos, tal como a negros e mestiços. Expressão também usada para referir os brancos não nascidos nas colónias, mas com bastantes anos de África.
. Comboio – trem.
. Gindungo (ou jindungo) – pimenta, piri-piri.
. Metrópole – referente ao Portugal europeu, por oposição aos territórios não europeus (colónias) sob a administração portuguesa que perdurou até 1975, no caso de Angola.
. Soba – o indivíduo que rege a tribo, geralmente de idade avançada à qual se associa sabedoria.

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Notas:

1. Kwadi é uma língua, já extinta, do sul de Namibe (Moçamedes), sul de Angola. Em 1971 foram registados apenas três falantes regulares. Ver Gordon, Raymond G., Jr. (ed.), 2005. Ethnologue: Languages of the World, Fifteenth edition. Dallas, Tex.: SIL International. Versão online: http://www.ethnologue.com/. Mais sobre Angola: http://pt.wikipedia.org/wiki/Angola.

2. Em 1961 Angola assistiu ao início da guerra que duraria até finais da década de 1990. Ver Cabrita, F., 1998. “O 1º. dia do fim do império”. In Revista Expresso. Jornal Expresso, edição 1324, de 14 de Março de 1998. Versão online [requer registo (grátis) e pagamento para ter acesso ao artigo]: http://primeirasedicoes.expresso.clix.pt/ed1324/r301.asp

3. O CFB - Caminho de Ferro de Benguela, atravessa Angola. Vai da cidade costeira atlântica do Lobito, na Província de Benguela até Dilolo na fronteira com a Zâmbia, a 1350Kms de distância. Nos últimos 30 anos só tem funcionado em dois trechos: nos 30Kms entre Lobito e Benguela; e nos cerca de 80Kms à volta do Huambo (Nova Lisboa), entre a Cáala e a estação de Katchiungo, próxima (8Kms) do Chinguar. Actualmente, a linha férrea e demais infraestruturas estão em fase de recuperação. O “Terminal CFB” alude à estação principal na cidade do Lobito.